domingo, 5 de setembro de 2010

Inveja na fnac!

É um tanto curioso morar num país cuja língua não se domina! A coisa que mais me faz falta é material de leitura. Com a internet isso fica menos evidente, porque tenho acesso a todos os sites de jornais brasileiros quando quiser. Mas e aquela vontade, aquela comichão bem no meio da fnac? A gente vê filas intermináveis de franceses carregando dúzias de livros pros caixas. Por que eu também não posso ler em francês?! A solução vem com um pouquinho de cara-de-pau somada ao jeitinho brasileiro. Não é bem livro, definitivamente não é literatura, mas é material de leitura na antiquada versão impressa. E uma forma de ficar lá na fila da livraria carregando algo além de dvds ou material pra limpeza do laptop.

No início das minhas férias, primeira semana de agosto, na Gibert Jeune, uma livraria enorme em Saint-Michel, comprei algo que tá em todo lugar nessa época de férias. São uns almanaques de quase 100 páginas, brochura de tamanho universitário. Coisa mesmo pra "diversão" durante as férias. Nas capas têm um selinho do tipo "350 quiz e jeux por vous tester!". Comprei 3 de "Le Monde": "Connaissez-vous la France?", "Connaissez-vous l'histoire de France?" e "Connaissez-vous la politique?", por 5,95 euros cada. É muito divertido! Mesmo o Patrick gosta de tentar responder às perguntas, às vezes básicas, outras bem de cultura inútil.

Dá inclusive pra perceber as tendências políticas do "Monde" em questões do tipo "l'une de ces personnes ne figurait pas parmi les personnalités invitées au Fouquet's le soir de l'élection de Nicolas Sarkozy à la présidence de la République. Laquelle est-ce?" (uma destas pessoas não figurava entre as personalidades convidadas à festa pela eleição de Sarkozy à presidência da República. Qual?) Claro que as 4 opções de respostas erradas eram nomes dos "barões" da economia francesa, donos de grandes empresas automobilísticas e aeronáuticas, todos amiguinhos íntimos do Sarkô. Como se o "Monde" não fosse mais de direita ainda... de qualquer forma, é uma outra direita.

Mas não são só perguntas. Tem bastante texto. Tem um bem engraçado, porque é do tipo editorial, mas sem nenhum alerta ;-): "L'Europe, mais quelle Europe? - Hier au coeur d'une Europe occidentale partiellement rassemblée, la France se sent aujourd'hui un peu perdue dans un vaste ensemble aux institutions lourdes, aux objectifs incertains, aux limites imprécises, et de plus en plus dominé par la langue et les références culturelles dites anglo-saxones. Après les débats liés à la Guerre froide, les polémiques portent à présent sur la place de l'Europe dans la mondialisation et sur celle de la France dans cette Union qui suscite espoirs et craintes." Não é curioso, num livrinho que se propõe informativo? O texto nem vem assinado e acha que pode falar em nome da França, “das esperanças e dos medos” que a UE suscita, do desconforto diante de um domínio cada vez maior da língua e da cultura anglo-saxônicas.Fiquei de queixo caído. Mas isso também não deixa de ser "informação", não é mesmo?!

Depois, na fnac, encontrei mais umas coisinhas interessantes. No mesmo formato almanaque comprei "300 jeux e quiz de littérature française", 5,90 euros, dessa vez de "Le Figaro", com 80 páginas. Mas finalmente encontrei o que procurava: "La littérature française", coleção "repéres pratiques" duma tal editora nathan ( www.nathan.fr/reperes-pratiques ) que "permet de balayer onze siècles d'histoire littéraire"! Só 160 páginas e por apenas 11,60 euros ;-)

Estou feliz e com leitura pra lá de suficiente pros meus 2 meses de férias. Mas claro que ainda tenho que estudar muita gramática. Andei pensando no meu futuro por aqui. Por conta disso estou planejando um curso de 1 ano de educação continuada na Universidade de Nanterre, que fica aqui pertinho de casa. Tem uma série de coisas que não posso controlar e que espero que estejam em ordem até a época da matrícula. O que posso é me preparar pensando positivamente que vou conseguir uma vaga. Nesse caso, preciso estudar muito francês pra passar pelo menos no DALF C1 (exame avançado de língua francesa) e conhecer minimamente a cultura e a literatura deste país. Essas coisas são pré-requisitos pra fazer o curso, além do domínio de 2 línguas estrangeiras, mas pode ser inglês e português, então estou tranquilo com este último tópico.

sábado, 28 de agosto de 2010

Ainda restrito aos blockbusters...

Na semana passada fomos assistir a "Le dernier maître de l'air", o filme baseado naquele desenhinho animado chamado "Avatar". Acho que tiveram que trocar o nome por conta do filme do James Cameron. Quanta decepção! O filme é dirigido pelo M. Night Shyamalan, o mesmo que dirigiu "O sexto sentido", mas parece que ele realmente errou a mão desta vez. Acho que o maior problema foi mesmo a mão do diretor, presente em cada cena, cada diálogo e determinada a estragar tudo. Honestamente, o filme tem os piores diálogos que já ouvi no cinema, sem exagero.

Ontem fui sozinho, às 11h40, assistir a "Salt", o filme de espiã da Angelina Jolie. Fui com expectativa baixíssima por conta das críticas negativas que tinha lido. Achei o filme super "hollywoodianamente" normal. Não entendi por que tanto alarde. A história é exagerada? Sim, mas e os 007 que a gente engole desde criança e adora? Todos os comentários que li soam um tanto machistas. O problema é o fato de que 007 virou mulher neste filme? Será que ninguém se lembra mais de Brigitte Montfort? Daqueles livrinhos de qualidade duvidosa, pra lá de kitsch?! Ou será que é porque ninguém engole mais histórias com a Guerra Fria como pano de fundo? Que falta faz a personificação de coisas básicas como o "bem" e o "mal", não?! A vida parecia mais simples quando os heróis americanos ainda tentavam livrar o mundo dos monstros comunistas.

Entretanto, ainda outro dia li que "espiões" russos foram presos nos "isteites". A única coisa que me surpreendeu mais foi que alguns dias depois os presos foram trocados por espiões norte-americanos capturados em Moscou. Eu, hein?! Dejà vu no jornal?!

Hoje fomos, eu e o Patrick, novamente ao cinema. Desta vez foi o filminho da Disney, "Aprendiz de feiticeiro". Claramente pra adolescente. Até difícil de encontrar versão legendada, principalmente às 9h15 da manhã. Gostamos de ir ao cinema aos sábados pela manhã. Quando critico, um amigo diz: "também, quem manda assistir a filme pra adolescente?" Muito preconceito! Conheço vários adolescentes que gostam de filmes de ação mas poderiam se divertir também com enredos mais elaborados, menor previsibilidade. Por que tudo tem que ser tão óbvio?

Bom, pra terminar este post com alguma utilidade além do meu desabafo por estar temporariamente condenado a assistir somente a blockbusters (por conta da minha incapacidade de compreender francês suficientemente pra assistir a algo mais complexo) deixo algumas informações de serviço: o ingresso de cinema às 9h00 custa 6 euros; mais tarde sobe pra 10,40 euros! As sessões diurnas de filmes mais juvenis são geralmente em V.F. (versão francesa, quer dizer, dublados em francês) e as noturnas são em V.O. (versão original, na língua original)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Realmente curta....

Exercício de postagem curta...

Adoro o "cooling pad" da Logitech que comprei na fnac por 29 euros. Fico feliz em acreditar que faço algo de bom pro meu laptop e não queimo meu "lap"! E o ventiladorzinho é danado de silencioso. Pronto! Postagem curta não pode ter mais que 4 linhas.

Curtas...

Parece que não é tão simples assim manter um blog, mesmo quando a gente decide escrever pouco. No mês de julho andei sem tempo por conta do curso intensivo de francês. Aulas todas as manhãs e toneladas de lição de casa com muita gramática não deixavam muito espaço pra inspiração. Mas agora, já em férias completas, acho que é a preguiça mesmo que resolveu sequestrar a musa inspiradora dos blogs.

Hoje, por exemplo, é quarta-feira, acordei às 8h00 pra tomar um chá com o Patrick e me despedir dele que ia pro trabalho. O próximo compromisso é às 15h00 com o gerente do banco pra abrir minha conta. Todo esse tempo livre faz a gente deixar tudo pra mais tarde. Quer dizer, isso se aplica a mim. Admito que conheço um monte de gente organizada que certamente aplica o tempo livre em atividades úteis e interessantes. Eu, no entanto, funciono diferente. Quanto mais tempo livre, menos vontade de me mexer. Sou um grande procrastinador, essa é a verdade. Adoro o verbo "procrastinar" e naturalmente adoro a ação de procrastinar.

Conheci no Brasil um americano que falava 7 línguas! Bem atípico, é lógico. Esse senhor me disse que não existia um correspondente a "deadline" em português do Brasil. Não sei, mas toda vez que tenho uma (ou um?) "deadline" é sempre a mesma coisa: me enrolo no tal verbo que citei acima e ficamos lá, namorando, rolando embaixo das cobertas se é inverno, brincando de esfregar cubos de gelo em partes íntimas no verão, pra só lembrar do(a) maldito(a) "deadline" em cima da hora.

Eu já disse que detesto estereótipos nacionais, mas acho que nós brasileiros temos uma ótima relação com a procrastinação e a preguiça. Logo que me mudei pra cá percebi o incômodo do Patrick quando eu dizia de manhã que estava com preguiça. Percebi que pra ele a própria palavra já deve ser proscrita. Sei lá se isso tem a ver com o Weber porque minhas aulas medíocres de filosofia e sociologia com um professor quase doutor e mal alfabetizado nunca me levaram muito longe nesse campo, mas sei que deu um trabalhão convencer o Patrick de que ter preguiça não é algo assim tão horrível. Acabei baixando o "Macunaíma" da internet pra mostrar pra ele que mesmo nosso herói nacional começou a vida cheio de preguiça até pra falar.

Inevitavelmente começo a imaginar o blog do Macunaíma. Teria com certeza menos "posts" que o meu, todos muito curtos, monossilábicos, aposto. Duro, mesmo, é que também acho que seria muito mais interessante ;-)

Ai, que preguiça!!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Petites choses

Parece que está muito difícil manter este blog! As previsões do meu irmão se confirmaram: comecei muito afoito, liberando uma represa, e agora não flui mais nada.

Tomei a decisão de tentar colocar pequenos posts aqui. Isso me lembra "O livro de cabeceira" de Sei Shonagon ("Makura-no-sôshi" escrito no ano 1000). Mas já previno meus leitores de que minhas pequenas impressões não serão tão poéticas nem eróticas.

Começando então com moda (na verdade, acho que tudo é moda): já comentei que os sapatos masculinos aqui têm bico muito mais fino e são bem mais longos?! Essa moda não me atrai muito, mesmo porque não preciso de sapatos novos, mas hoje, pela primeira vez, adotei um costume que me chamou atenção desde que cheguei: os parisienses usam camisa polo com a gola levantada. Senti uma certa estranheza antes de sair de casa, mas todo mundo que passou por mim na rua sem me lançar nem o mais discreto olhar, acabou me confirmando que eu estava na moda. Ah! E alguém que me lançou um olhar bem pouco discreto acabou sendo um estímulo extra.

Em tempo, o olhar indiscreto e simpático, embora tentador, não foi correspondido, porque hoje sou um homem casado e monogâmico. Quase de ferro!

Outra moda, ou não, sei lá. Se for moda, é permanente, segundo o Patrick: cadernos franceses são quadriculados! Nesta época de "rentrée", que é o retorno das férias de verão no final de setembro, todas as papelarias e supermercados têm uma sessão enorme de material escolar. Mas pode procurar, todos os cadernos são quadriculados. Na verdade, a maioria é milimetrado! Minha amiga Renata estava procurando um bom caderninho com linhas exclusivamente horizontais como os brasileiros, mas só encontra se for inglês ou americano. Obviamente, estes custam os "zóios".

Bem, é o que tem pra hoje. Minha amiga Sei Shonagon já pode voltar a repousar tranquila em seu túmulo milenar.

domingo, 4 de julho de 2010

Sábado com feijoada.


Ontem fizemos nossa primeira feijoada. As cobaias foram o Sérgio, brasileiro e o Lionel, francês. Não sei se por pura gentileza de visitantes, mas ambos disseram que estava muito boa ;-)




O Patrick ajudou muito, mas acho que posso dizer que os créditos, desta vez, são meus. Ele descobriu uma "couve chinesa" que tem por aqui, porque a única coisa que a gente não descobriu, ou pelo menos um substituto à altura, foi mesmo a verdura. Então, o crédito da "couve chinesa" fica mesmo pro Patrick. Ela ficou, depois de refogada, mais parecida com acelga.

Também fiz o arroz branco e a farofa, com banana crua, como a Paty faz, e todo mundo adorou.

Pronomes relativos e subjuntivo ;-)

Acho que gosto um pouco demais de gramática! Gosto de nomenclatura gramatical, o que, para alguns linguistas, pode parecer até um crime. Este meu período estudando francês parece aguçar isso. Talvez porque os professores de francês como língua estrangeira (FLE) que encontrei até agora na França (pelo menos 3 em 4) são muito gramaticalistas. Também porque cheguei ao bendito subjuntivo em francês. Comecei a pensar como é bom ser falante de português nessas horas. O português tem usos bem parecidos para o subjuntivo.

Quando estudei pronome relativo já pensei muito nos meus alunos de inglês no Brasil que não conseguiam entender meu mau humor quando eles usavam só 2 pronomes relativos ("que" e "onde") pra qualquer situação e nunca uma preposição combinada. O resultado é que tinham uma dificuldade enorme pra transferir isso pro inglês. E sempre me achavam chato nas correções porque diziam que a preposição era um "detalhe bobo" em expressões como "in which", "from which", "of which". Imagine quando eu tentava ensinar "whose" e eles descobriam que correspondia ao "cujo" do português.

Agora que estou brigando com o subjuntivo francês e acho difícil quando ele não corresponde ao nosso, como com o verbo "esperar/espérer", fico pensando no falante médio de português em São Paulo. Sou neurótico ou o paulistano cada vez mais se recusa a usar o subjuntivo?! Minha amiga Fê Damigo, professora universitária, profunda conhecedora dos tempos e modos verbais, também me chama de chato e diz que adora quando a sobrinha pergunta "quer que eu busco"?. Fê concorda comigo que isso é o "subjuntivo paulistano" e diz que adora.

A verdade é que também acho "engraçadinho" o jeito como as crianças falam. Mas os adultos não deviam falar de outro jeito? Pelo menos os adultos que passaram alguns anos nos bancos escolares?! Aí lembro da minha amiga Lusia, que sempre me questiona a relevância do conteúdo ensinado na escola. Ela me cutucava quando eu achava um absurdo que um aluno olhasse o mapa da Europa e confundisse a Grã-Bretanha com a Grécia, com a desculpa de que ouvia muito falar em "Ilhas Gregas". Detalhe! A aluna que me expôs a essa pérola era formada em geografia!

Acho que aos 44 anos assumo meu consevadorismo e meu ranço linguístico. Tudo isso para manifestar mais um dos meus preconceitos ;-) Não li nada a respeito mas, totalmente baseado nos meus achismos (e num papo com uma amiga carioca que me disse que no RJ ela nunca ouviu um adulto perguntar "quer que eu busco?") escrevo aqui que a educação em SP está matando o português. O português paulistano é dos piores praticados no Brasil. A arrogância dos paulistanos não permite enxergar isso, mas acho que os resultados em exames escolares confirmam minha afirmação.

Este meu texto polêmico e até um pouco agressivo também foi provocado por um comentário que li no caderno Link do Estadão. Foi postado por um leitor que não posso identificar. Alguém cujo passado escolar não me diz respeito, mas suponho que leitor do Estadão represente um brasileiro medianamente educado. Também nem sei se é um leitor paulistano, são hipóteses. Mas acho difícil ficar indiferente a um texto como este:

"03/07/2010 - 17:07
Enviado por: XXXXX

Na verdade é um problema cultural, para a nossa cultura não há de errado, pois vemos coisas mais expostas na praias e piscinas. Mas em outros lugares do planeta a coisa não é assim, esse tipo de imagem é visto como pura pornografia. O FaceBook tem alcance mundial e esta agindo de acordo com o ambiente multicultural que atua. A gravadora Universal sabe disso e deveria ter evitado essa polemica. Acho que mesmo que a polemica é proposital, ela é que é a verdadeira propaganda do disco."

Agora, senhores linguistas de plantão, iluminem-me! Estou aberto a rever meus preconceitos. Alguém ajude. Quem sabe eu possa compreender os caminhos percorridos pela língua portuguesa nessa metrópole fantástica que é São Paulo?! Se preferirem, apontem meus erros de português, que também não devem ser poucos. Mas não consigo deixar de ter algum dó de professores de francês como língua estrangeira em SP. Se eu sofria com o pronome relativo, imagine ter que ensinar isso e mais o subjuntivo em uma língua estrangeira pra alguém que matou ambos na primeira língua, ou que os classifica como "detalhe bobo"